Ricardo Rodrigues, Rimbaud, 2016

 

 

O Caso Rimbaud

 

 

 

Vi demais. A visão se revia pelos ares.
Tive demais. Sons de cidade,

à tarde, e ao sol, e sempres.
Soube demais. As paradas da vida.

– Ó Sons e Visões!
Partida entre afeto e ruídos novos.

Arthur Rimbaud

 

 

 

 

Há uma razão nisso tudo

 

Rimbaud foi um grande vivente. Rimbaud sonhou com uma vida dourada de conquistas e expedições. Havia um projeto, uma razão nisso tudo. Ele colocou em prática, por conta própria, o que Nietzsche, na Segunda Consideração Intempestiva, considerava ser a adequada educação de um jovem: um saber sobre a vida, com a vida e a própria vivência – em outras palavras: uma experimentação. Inicialmente um desejo de “experimentar algo por si mesmo e de sentir crescer em si um sistema coerente de suas próprias experiências” – “Um longo, imenso, racional desregramento de todos os sentidos”. Depois uma experimentação sobre o mundo, com o mundo e o próprio mundanismo. Rimbaud não tinha outro intuito que o de se lançar no mundo. Realizou uma das experimentações mais intensas e rigorosas que já se ouviu falar. Uma viagem sem volta. Rimbaud detinha uma compreensão extraordinária da vida, propriamente visionária. Assim como todo personagem fatalista (Édipo, Hamlet, Bartleby), deixa de seguir o fluxo ordinário das coisas e passa a funcionar de uma maneira própria, original. Primeiro fez uma incursão ao espírito, depois ao mundo. Mas o mundo já não era mais aquele mesmo de antes; assim como o seu espírito. Os que lamentam a interrupção de sua carreira literária não compreendem o que isso significa. Uma experimentação não é como sair de casa, andar por regiões perigosas e retornar são e salvo. A experimentação é aquilo que nos tira dos eixos, que nos faz pirar. Rimbaud desejava tomar as rédeas do mundo. Não devemos lamentar, com certeza, a sua precoce despedida da literatura. Só uma coisa nos interessa realmente no caso Rimbaud: o seu tipo. Um espírito expedicionário, veloz, experimentador, que não tolera o cotidiano, a repetição. O contrário de um tipo lento e ruminante. Rimbaud tinha, como poucos, o instinto jovem extremamente aguçado. A própria impetuosidade em pessoa. O seu tipo é raro, incomum. Rimbaud não abandonou apenas a poesia, mas também a família, os amigos, a pátria, o continente e a sua própria persona franco-literária.


Parte do seu propósito expedicionário foi impulsionado pelo tédio assombroso que sentia por sua pequena cidade natal; o que sem dúvida o marcou profundamente. Estudou línguas já com o intuito de se aventurar. Antes de partir para África, perambulou por quase toda a Europa – muitas vezes a pé. Como Jack Kerouac, passou por provações e diversos empregos. Ao contrário de Kerouac e a maioria dos escritores, esgotou cedo demais as possibilidades da escrita, levando-a ao seu limite – e é exatamente aí que se encontra a sua genialidade. Tal fato, porém, não ocorreu de forma gratuita: Rimbaud viveu e sofreu cada palavra “na ignorância e impetuosidade de sua juventude”. Serve para ele as palavras que Nietzsche dirige aos pré-socráticos: aqueles que “souberam domar o seu instinto de conhecimento, em si insaciável, mediante a consideração pela vida e mediante a necessidade de uma vida ideal – porque o que apreendiam logo queriam viver”. Podemos dizer que foi por uma necessidade de vida ideal, rigorosamente pensada e planejada, que Rimbaud se lançou ao mundo. A poesia, como meio de apreensão, o levou a uma intuição imediata da vida. Ele tomou então a vida como um ofício, que “precisa ser aprendido constantemente e exercitado sem comiseração”. Em vez de uma eterna verdade, uma verdade necessária, prática: “o ver e o ouvir corretos e simples, para a apreensão feliz do que há de mais próximo e natural”, “em busca de uma saúde mais vigorosa, um sentimento de vida cada vez mais elevado”. Na Segunda


consideração intempestiva, Nietzsche nos diz que tal intuição é própria da juventude que tem “o dom da vidência da natureza”. Juventude que ainda não foi massacrada pelo verniz da cultura, e que conserva ainda sua força plástica de pensamento.


Havia um propósito com certeza. Aqueles que acusam Rimbaud de irracionalismo desconsideram seu legado poético e sua biografia. A não ser que irracionalismo designe um sofisticado arranjo das faculdades, tal termo só pode soar como ofensa no caso Rimbaud. Suas poesias e relatos demonstram um propósito firme e coerente. Também não há absurdo algum, como quer ver tola e sedutoramente Albert Camus. Assim como a razão pode ser usada para fins pouco razoáveis, a vida está apta a receber novos sentidos. A questão é que os moralistas não admitem que da razão se possa fazer um uso louco; e da vida, um ato de criação. Os sentidos são de fato maleáveis, fugidios, múltiplos, construídos, passíveis de novas perspectivas, mas isto não quer dizer que o mundo e a vida sejam obras do absurdo, gratuitas. É o próprio Rimbaud que nos diz: “Todos os meus meios são razoáveis; meus motivos e meu objetivo é que são loucos”. “E pensar que eu tenho a verdade, que vejo a justiça: tenho um juízo são e decidido, estou pronto para a perfeição...” “Longo, imenso, lógico desregramento de todos os sentidos.”


Não há nenhum irracionalismo ou absurdo, mas o matrimônio entre o céu e o inferno. Rimbaud faz parte de uma linhagem de escritores que se recusavam a aceitar dualismos estéreis, oposições de cunho moral. De Willian Blake aos Beats – a mesma alquimia do verbo, praticada nos livros e nos corpos. Rimbaud, em alguns de seus poemas, fez rasgados elogios aos santos – “Os santos! São fortes! Os anacoretas; artistas como não se fazem mais!” Sua temporada no inferno tem uma elevada inspiração religiosa. Assim como Allen Ginsberg e Kerouac – o católico, místico, solitário, errante e louco -, Rimbaud também exerceu o sacerdócio na poesia.

 


Luta espiritual

 

 

A luta espiritual é tão brutal quanto a batalha

dos homens, mas a visão da justiça

é prazer só de deus

Arthur Rimbaud

 

 

Rimbaud foi poeta, andarilho, professor de línguas, marinheiro, expedicionário, geógrafo, cartógrafo, fotógrafo, comerciante, representante comercial, traficante de armas... E ele não abandonou a poesia por dinheiro ou pelo trabalho honesto, como muitos nos querem fazer crer. Rimbaud tinha um projeto expedicionário, de expansão de suas habilidades e de sua consciência. Rimbaud foi um conquistador; sonhava explorar regiões desconhecidas. Ele sabia de antemão que o dinheiro e o trabalho eram apenas possibilidades interessantes, motivadoras, mas insuficientes. Para tipos como ele não há paz, limite, nem finalidades últimas, mas apenas o jogo eterno do acaso. O Jogador, de Dostoievski, nos serve de parâmetro: ao grande jogador não importa ganhar ou perder, só interessa o jogo. Rimbaud pode ter fracassado em seu projeto financeiro; como ele mesmo diz, faltou-lhe sorte. Mas ele sabia que no jogo não há vencedores: perder ou ganhar são apenas resultados possíveis. Em seu caso, a derrota parecia mais provável. Em suas cartas ele demonstra lucidez e até pessimismo ante o seu projeto, mas em nenhum momento nos fala de desistência ou de arrependimento. O tédio o atormentava; e ele lutava ferozmente contra o tédio. Mas o fato é que não podemos nos esquivar do tédio, do conflito ou da dor permanentemente – “Certa é a tortura”. Heráclito ironizou Homero por este assinalar o fim da discórdia: “ele não via que suplicava pela destruição do universo”. Da mesma forma, Rimbaud, mesmo que obtivesse êxito em sua empreitada financeira, jamais deixaria de ser um errante louco e nômade. Ele apenas viveria com mais conforto e liberdade. Como ele próprio afirmou: “em todo caso, não pensem que o meu espírito se tornaria menos vagabundo, ao contrário, se eu tivesse meios para viajar sem ser forçado a parar para trabalhar e ganhar minha existência, ninguém me veria mais de dois meses em um mesmo lugar. O mundo é muito grande e cheio de regiões magníficas que nem a existência de mil homens bastaria para visitá-las. Mas por outro lado, eu não gostaria de vagabundear na miséria, gostaria de ter alguns milhares de francos de renda e poder passar o ano em dois ou três lugares diferentes, vivendo modestamente, fazendo alguns pequenos negócios para pagar as minhas despesas. Eu continuarei achando muito triste continuar vivendo no mesmo lugar. Enfim, o mais provável é que sempre acabemos onde não queríamos ir, fazendo o que não gostaríamos de fazer. Vivendo e morrendo de maneira totalmente diferente do que queríamos, sem esperanças de nenhuma espécie de compensação”.


Ante as expectativas dos familiares, que tentavam a todo custo trazê-lo de volta à França para levar uma vida comum, ele escreveu: “Ao falar de casamento, sempre quis dar a entender que queria continuar livre para viajar, viver no estrangeiro e mesmo continuar a viver na África. Estou de tal maneira desabituado ao clima da Europa que seria difícil voltar. Seria mesmo necessário que passasse dois invernos fora, se admitirmos que eu volte um dia à França. E depois, como voltaria a fazer relações, que empregos encontraria? É ainda uma questão. Além disso, se há uma coisa que para mim é impossível é levar uma vida sedentária. Seria necessário que eu encontrasse alguém que me seguisse em minhas peregrinações”.


Rimbaud que nasceu e viveu parte de sua juventude em uma cidade interiorana, tinha horror ao sedentarismo. Resistiu ao máximo à tentação de retorno. E mesmo na agonia em Marselha, quando retornou para tratar de sua doença, seus pensamentos estavam na África. Sua última carta prova que não houve de fato arrependimento, nem desistência. Seus últimos relatos (estimulados pela morfina) eram delírios geográficos, transações comerciais, expedições.


Rimbaud, ao contrário dos tipos ruminantes e de contrato, jamais se contentava com pequenas glórias. Os grandes viventes não se restringem a cargos, categorias, ofícios, gêneros. Rimbaud poderia ter vivido da glória de poeta, tinha razões para isso – mas de que vale ter razões ou pequenas glórias, uma profissão ou um lugar de poeta bem constituído? Rimbaud recusou-se a ser um mero representante ou funcionário da poesia. Ao grande vivente, como assinalou Nietzsche acerca do filósofo, cabe todos os estágios: “talvez seja preciso ser ele mesmo crítico, cético, dogmático e historiador e, por acréscimo, poeta e colecionador, viajante e decifrador de enigmas, moralista e vidente, ‘espírito livre’ e quase tudo no mundo, afim de percorrer o ciclo inteiro dos valores e dos juízos humanos e ter constituído para si todo uma variedade de olhos e de consciências para explorar do alto dos cumes todos os horizontes longínquos, do fundo do abismo todos os cumes, de um canto estreito todos os espaços”.


Rimbaud, assim como Nietzsche, não se escondeu atrás da cômoda separação entre pensamento e vida. Eis um homem que, como Nietzsche, seu contemporâneo, viveu nos extremos, sem concessões – até a auto-implosão. Ambos são exemplos do quanto a luta espiritual pode ser brutal, e de como a poesia e o pensamento – longe de serem inúteis ou gratuitos –, podem se revelar atividades de alto risco, pois elevam a vida a patamares inauditos, a modos de vida intensos. Rimbaud realmente abandonou a literatura pela vida, como bem o disse Henry Miller. Sua experimentação o levou “a romper com as vidraças que nos separam do mundo”. Obviamente há riscos. Rimbaud, Nietzsche, Antonin Artaud (e tantos outros) provam a assertiva de F. Scott Fitzgerald de que toda vida é um processo de demolição. Eles viveram intensamente até a extenuação de seus corpos. O cinema nos legou também ótimos exemplos. Os filmes Pierrot le Fou (1965), de Jean-Luc Godard, O Bandido da Luz vermelha (1968), de Rogério Sganzerla, Profissão: Repórter (1975), de Michelangelo Antonioni, Último tango em Paris (1972), de Bernardo Bertolucci nos apresentam personagens que romperam com suas vidas costumeiras. Personagens também desiludidos e errantes, a caminho da demolição; cujo ofício é, como disse José Régio, “desflorar florestas virgens”. Todos eles têm sobre si a sombra de Arthur Rimbaud.


Rimbaud alcançou em poucos anos o que muitos não alcançariam, nem jamais alcançarão em centenas. Rimbaud era um espírito livre, um andarilho, como assim denomina Nietzsche os grandes viventes: “Quem alcançou em alguma medida a liberdade da razão, não pode se sentir mais que um andarilho sobre a Terra – e não um viajante que se dirige para uma reta final: pois esta não existe. (...) Nascidos dos mistérios da alvorada, eles ponderam como é possível que o dia, entre o décimo e o décimo toque do sino, tenha um semblante assim puro, assim tão luminoso, tão sereno-transfigurado: - eles buscam a filosofia da manhã”.

 


Mal visto mal dito

 

 

Isto passou, hoje sei saudar a beleza.
Arthur Rimbaud

 

O maldito representa apenas uma fase, fase reativa de intolerâncias e iconoclastias: o rugir do leão. Mas não nos enganemos, o termo maldito traz consigo um ranço moral. O maldito só é representável em relação a uma norma e a uma representação do bendito. Como toda fase, a fase do maldito pode e deve ser superada. Por trás de toda discórdia, existe uma harmonia mais fundamental. Tal harmonia, no entanto, como nos legou Heráclito, não significa a eliminação do conflito, mas representa apenas tão somente a superioridade momentânea de uma das forças envolvidas. A compreensão de bem e mal, como extremos inconciliáveis, faz parte de uma velha e retrógrada imagem do mundo - imagem moral, refutada por Heráclito e por todos os filósofos não idealistas. As religiões, a metafísica e a moral se fundam em rígidas oposições de valores, em generalizações grosseiras de casos particulares. Cabe ao maldito, portanto, criticar as generalizações nocivas de cada época; mas cabe também a ele a superação de toda fase crítica; pois as oposições enrijecidas – “onde há somente degraus e uma sutil gama de gradações...” –, fazem parte de um modo popular e preconceituoso de avaliação.


Rimbaud quando debandou para a África, não tinha em mente um projeto romântico, nem a necessidade de se penitenciar. Ao contrário de Paul Verlaine, que se converteu ao catolicismo para tempos depois morrer como um bêbado devorado pelo remorso, Rimbaud foi até o fim da vida um descrente e um errante. Na África, vivia como um comerciante árabe e não como um fugitivo, um expatriado ou um herege. Não havia segredos para ocultar. E mesmo quando ele negava ser o poeta francês ou um parente deste, só o fazia por comodidade, para não ser importunado, e porque sua vida, excetuado o nome, já não trazia consigo nada do passado. A fuga traz em seu benefício a inutilidade do uso das máscaras cotidianas e costumeiras. Deleuze nos diz algo interessante a esse respeito: na fuga “já não temos segredos, não temos mais nada a esconder. Somos nós que nos tornamos um segredo, somos nós que estamos escondidos, embora tudo o que façamos, nós o fazemos na luz do dia e na luz crua. É o contrário do ‘maldito’. Nós nos pintamos com as cores do mundo”.


As últimas horas de Rimbaud também não nos devem inquietar. A conversão em nada compromete a sua saga errante. A extrema unção, com todos os rigores católicos, foi o último ato cerimonioso de encanto e poesia em sua vida. Na condição em que se encontrava, essa era a única e a última forma (se confiarmos na descrição feita por sua irmã) de reverenciar a beleza. A temporada no inferno se encerra. É preciso que passe. A beatitude nos acena; “os bandos de musas” passam dançando ao nosso lado; e a eternidade, a “filosofia da manhã” é, enfim, reencontrada.


 

BIBLIOGRAFIA

DELEUZE, Gilles; PARNET, Claire. Diálogos. São Paulo: Escuta, 2002, 1977.
MILLER, Henry. A hora dos assassinos. Porto Alegre: LP&M.
RIMBAUD, Arthur. Correspondências de Arthur Rimbaud. Porto Alegre: LP&M.
_______. Iluminuras: Gravuras Coloridas. São Paulo: Iluminuras, 2002.175 p.
NIETZSCHE, Friedrich. A filosofia na idade trágica dos gregos. Lisboa: Edições 70, 1987.
_______. Segunda consideração intempestiva: da utilidade e desvantagem da história para vida. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2003.
________. O livro do filósofo. Porto: Rés-Editora, 200-?

 

Rio de Janeiro, outubro de 2006.