Ricardo Rodrigues, Leitor Faquir, 2017

 

 

Leitor Faqui

 

 

 

Embora o filósofo Gilles Deleuze diga

que há humor em Kafka, os livros

do autor de A metamorfose, por exemplo,

jamais são lidos sem que causem, no leitor,

bastante inquietação. Ler Kafka é como

deitar numa cama de pregos.

 

 

 

 

Em Assim falava Zaratustra, no tópico do Do ler e do escrever, Nietzsche diz que só aprecia livros escritos com sangue. Neste mesmo tópico, ele diz, em sequência, que detesta todos os que leem por desfastio. Difícil imaginar, no entanto, que certos autores sejam lidos como passatempo. Embora o filósofo Gilles Deleuze diga que há humor em Kafka, os livros do autor de A metamorfose, por exemplo, jamais são lidos sem que causem, no leitor, bastante inquietação. Ler Kafka é como deitar numa cama de pregos: embora os pregos não representem uma forte ameaça (a física explica), o perigo está ali, nos rondando, bem de perto. O mesmo vale para Dostoiévski, a quem Nietzsche elogia, em Crepúsculo dos ídolos, como um grande psicólogo.

 

Em Um artista da fome, Kafka nos dá a dimensão apropriada do leitor inveterado que não lê por desfastio. Pois ler pode ser também uma arte; uma arte da fome, no qual o leitor vai aos poucos definhando, desaparecendo pro mundo. Este texto de Kafka nos remete ao universo circense, à “arte” dos faquires. É um texto que todos aqueles que possuem pretensões artísticas deveriam ler. Um artista da fome dialoga com as vanguardas artísticas européias, com a arte conceitual, com a performance e retrata a condição do artista em relação à sociedade (assim como a novela Josefina, a cantora ou O povo dos camundongos).

 

Em 1970, José Mojica Marins (mais conhecido como Zé do Caixão) interpretou um faquir em O Profeta da fome, filme de Maurice Capovilla, inspirado, muito provavelmente, no conto de Kafka. O Profeta da Fome, por sua vez, é utilizado como referência no álbum Fome de Tudo (2007), do grupo Nação Zumbi. O final da faixa “Onde tenho que ir” traz uma mixagem com a impactante voz do personagem de Mojica – colagem que confere ao disco um forte traço literário.

 

Mesmo com o advento da indústria cultural e do mercado da arte o artista é, ainda, para a sociedade, um famélico, e o será, para todo o sempre, pois as núpcias entre a sociedade e o artista traem a própria essência da arte, que é ser minoritária, incômoda, errante. Da exclusão do poeta da República platônica ao mictório de Duchamp, a arte segue provocando atritos e constrangimentos, impelindo os espectadores a saírem da sala e emitir impropérios.

 

 

 

São Paulo, 12 de março de 2017