Ricardo Rodrigues, O charadista, 2017

 

Homero, o poeta cego, e a charada mortal

 

 

Por ser cego, Homero não pôde ler

“direto no livro do mundo”, como recomenda

Schopenhauer, nem catar piolhos,

tarefas essenciais para compreender a charada

dos garotos. Tais características nos dão

a adequada dimensão da profunda ironia

dos relatos ou anedotas acerca de sua morte.

 

 

 

Homero, escritor grego e autor da Ilíada e Odisseia, é considerado, além de um grande poeta, um excepcional charadista ou decifrador de enigmas. Sua grande sabedoria não o livrou, porém, de sucumbir (literalmente) a uma charada infantil, lançada por um grupo de pescadores mirins.

 

Toda a biografia de Homero é rodeada de suspeitas. Nem sequer sua existência e a autoria dos poemas que levam sua assinatura podem ser comprovadas. Os relatos sobre sua vida são contraditórios e fantasiosos. Dizem que Homero era cego e que havia concebido seus poemas de “ouvido”, isto é, de ouvir falar, pela transmissão oral.

 

As narrativas sobre sua morte são sarcásticas. Assim como Sócrates, o filósofo que andava descalço e fugia da mulher e dos credores, muita coisa sobre a vida de Homero soa como ironia, o que faz de sua biografia uma genuína invenção grega.

 

Por ser cego, Homero não pôde ler “direto no livro do mundo”, como recomenda Schopenhauer, nem catar piolhos, tarefas essenciais para compreender a charada dos garotos. Tais características nos dão a adequada dimensão da profunda ironia dos relatos ou anedotas acerca de sua morte.

 

Transcrevo abaixo um trecho do artigo Homero: tentativas de (re)construção biográfica na Antiguidade, de Ana Elias Pinheiro, que trata da morte do poeta.

 

“A idade de Homero avançava, é certo, e, talvez por essa mesma razão, o poeta acabara por esquecer que, em tempos, numa das suas muitas viagens, um oráculo lhe adivinhara uma morte causada pela incapacidade de descortinar o sentido de um enigma formulado por garotos.

 

 

A ilha de Ios era a pátria da tua mãe e na morte te há-de
acolher. Toma atenção ao enigma das crianças.

 


De facto, numa tarde em que se sentara junto às margens de um rio, sentiu passar um grupo de rapazitos a caminho da pesca. No regresso, Homero, que lá continuava, interrogou-os sobre o que pescaram. Responderam-lhe as crianças: O que pescámos deixámo-lo ficar, o que não pescámos trazemo-lo connosco. Não tendo ele entendido esta resposta e tendo inquirido sobre o seu sentido, os rapazes explicaram-lhe que não tinham conseguido pesca alguma mas que tinham estado a catar os piolhos, deixando os que tinham encontrado e trazendo nos mantos os que não tinham conseguido apanhar. A memória trouxe a Homero a voz profética da Pítia. Abalado, dispunha-se a abandonar o local, quando escorregou na margem lodacenta do rio, batendo com a cabeça numa pedra. Três dias passados, morreu, o seu corpo foi descoberto, sepultado com honras e sobre o seu túmulo os homens de Ios mandaram gravar: Neste lugar, a terra cobre a cabeça sagrada que fez dos guerreiros heróis, o divino Homero.”

 

 

Para ler o artigo completo de Ana Elias Pinheiro, acesse o endereço abaixo:

https://digitalis-sp.uc.pt/bitstream/10316.2/23605/1/Mathesis14_artigo6.pdf?ln=pt-pt

 

 

 

 

São Paulo, 12 de março de 2017